quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

flutuaçoes...fernanda aparicio

Essa dor, esse nada, um meio inteiro que não palpita mais e insisto em fazer voltar a bater.Eu quero o quente, o frio, os dois ao mesmo tempo, uns me chamarão egoísta outros egocêntrica, mas eu sou mesmo é humana....desse tipo de ser que torna sua dor maior que o universo e fundo como o oceano e insiste, não desiste de querer plantar flores e capim no concreto.

Quero, enfim, andar, somente andar, já que sei que o caminho nunca mais será o mesmo, sei que nem todos caminhos são iguais, mas este é diferente, bato minha cabeça contra as paredes, berro, não aceito que você fique neste pedestal e por isso grito, grito, mas seus ouvidos estão muito limpos para ouvir o que julgas tamanha sujeira e eu continuo...paro, a voz se cala, o sangue esfria e você agora é só um pedaço de pau imóvel, não percebe a si mesmo e nem me percebe, essa dor vem de saber que fui apenas uma palavra, um gesto, um nada que não precisa de respostas ou justificativas. Nada, nada precisa ser falado...o nada não sente, o nada não vê que gritar para pedaços de pau não constroem estradas e mais, o nada não sabe que paus e madeira não sentem.

Os caminhos que tomamos nem sempre conduzem aos nossos destinos, o destino que gostaríamos, mas a dor de passar por caminhos frios, gélidos ou simplesmente intocáveis e inabaláveis é pior que destinos odiosos, torna o passo pesado, a cabeça atormentada e o coração fica pra fora do corpo para que não possamos sentir nem ódio por onde passamos.
Esse ódio desmedido que você esconde daria mais prazer se pudesse sentir o sangue, quente ainda, tocar a palma da mão de raiva... sim e se um tapa ao menos tivesse, uma navalhada, que cortasse fundo a carne seria melhor que teu silêncio, ao menos a lâmina dançaria suave entre o quente e macio de minhas veias cheias de sangue e da maciez da carne e eu enfim sentiria a dor e o fim, cortante, profundo, um misto de sentir e não querer mais te sentir.

Que fique explicado que nem sempre sei me explicar, Que fique nítido que nem eu às vezes vejo meus contornos, Que fique claro que eu às vezes, e muitas,ando no escuro, Que fique definido que muitas vezes quando olho para o espelho vejo pessoas que nunca vi e sei que todas elas têm um pouco de mim.

Eu sou milhares de mim, Por vezes não reconheço meus rostos, Alguns nunca vi de perto... Mas que importam todos eles? Estou nua diante de teus olhos e atrás de mim milhares eus que preciso conhecer, Eu não me reconheço ali sentada diante da avenida estática Eu movimento, voando com o vento, Pairando desvairada e louca atrás de um momento.

A noite linda convida um belo poema Eu nego isso à ela Que se foda a noite, Minha dor é maior que eu, Eu escrevo aqui não porque os amantes dançam Eu escrevo aqui porque o silêncio me corta, Porque meus dias se arrastam como horas mal contadas E cada luz do dia que ilumina meu rosto mostra uma imperfeição Eu escrevo porque teu silêncio me mata aos poucos e tento sobreviver Quem sabe com alguns versos possa ver algo mais belo, mais humano que o desdém...eu existo.

Eu só existo, não sei se por inteira ou pela metade.
Sei que existo e isso é tudo
Tranço os cabelos de frente o espelho lembrando cheriso e sabores,
Existir é doído,
É tentar sentir todo dia o que muitos ignoram,
É sair pelas ruas tentando montar quadros,
Obras-primas com a luz do sol ou de alguma saudade...
Existir é negar o que querem que sejamos
Mas tentar ser, antes, eu ou você ou várias pessoas numa só...eu só queria existir.
Palpável e quente, ser devorada por olhos que também existam e tocada na imensidão de tudo e do infinito nada.


Páginas, páginas, páginas.
Ah nunca as lerão... e mesmo assim escrevo e me pergunto porquê
Quando se tem essa doença de sentir fundo e profundo a voz fica baixinha
O coração bate um pouco mais rápido e procura-se por algo que pinte ou apareça no papel

E conforme as letras dançam ao som do pensamento o restante dos órgãos respiram aliviados
Talvez não gritem agora alto com a voz
Mas gritam a cada letra que parece ser devorada e cuspida num só instante,
O baile nunca termina,
O tempo é sempre pouco e só meus fios de cabelo verão o que escrevo,
E todo esse corpo que parece ser saudável mostra a cada linha a debilidade e fraqueza
De tentar seguir dia após dia."


...fernanda aparicio

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